Torkjell Leira: “há um paradoxo ambiental das empresas norueguesas no Brasil pouco conhecido”

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"O Brasil é o terceiro maior mercado de investimentos para as empresas", diz o brasilianista (Foto: arquivo pessoal)

A Noruega é vista como uma defensora do meio ambiente no Brasil. Porém Torkjell Leira, brasilianista norueguês de 48 anos, mostra que o país também investiu muito em atividades que degradam a natureza. Geógrafo de formação, trabalhou no movimento ambiental, hoje é pesquisador da Amazônia do Museu de Historia natural de Oslo, ligado à Universidade de Oslo, e também no Museu das Mudanças Climáticas, a Casa do Clima, que inaugurou na capital norueguesa em junho, mostra o outro lado da relação. Professor de capoeira e viajou  com uma mochila nas costas por todo o Brasil. Autor do livro A Luta pela Floresta, R$ 49 na Amazon (https://editoraruadosabao.com.br/tag/a-luta-pela-floresta/) , ele afirma que seu livro está ampliando o debate em seu país de origem.

Como começou sua relação com o Brasil?

Eu, no segundo grau, ainda com 16, 17 anos, queria passar um ano de intercâmbio fora. Meu pai e meu irmão já haviam feito isso, ambos foram aos Estados Unidos. Eu queria fazer algo diferente. Como a gente já havia hospedado um brasileiro em casa, pensei que já tinha uma relação com o Brasil e que o bacana era tentar outro país. Então queria aprender espanhol e, me inscrevi para intercâmbio em vários países da América latina de fala espanhola, com o Brasil no quinto lugar. Mas alguém, em algum momento e por algum motivo que eu desconheço, colocou meu nome na lista de intercâmbio para o Brasil. Admito, fiquei até chateado, pois queria aprender espanhol. Mas tudo bem, já conhecia todos os estereótipos, carnaval, bossa nova, futebol, e pensei que poderia ser uma boa temporada no país. Mas acabei amando isso, vim pra Brasília a primeira vez há 30 anos e hoje tenho uma verdadeira paixão pelo Brasil. Tenho 48 anos e conheço todos os 27 estados do Brasil. Acho que sou o único norueguês que visitou todos os estados brasileiros. Ele morou em Brasília neste estágio, depois se formou em História na UNB e já voltou para trabalhar no país diversas vezes. Hoje, além da minha vida mais acadêmica, sou professor de capoeira.

Você é o único brasilianista da Noruega?

Bom, eu acho este termo brasilianista um pouco estranho, para falar a verdade. Eu descobri este termo nos anos 90. Eu confesso que fico meio sem jeito quando as pessoas, hoje, me chamam pelo mesmo termo. Mas quando eu comecei a estudar o Brasil, e mesmo quando escrevi o meu primeiro livro sobre o Brasil, em 2014, o país era muito desconhecido, uma incógnita para muitos noruegueses. Quando se falava de América Latina as pessoas pensavam em Cuba, por questões política, ou na Argentina, pela cultura, e no Brasil era só o estereótipo, de futebol, samba e praias, mas não havia algo mais acadêmico, e mesmo pouca relação comercial . Mas com o pré-sal a relação explodiu e também surgiu um crescente interesse pelas questões ambientais, da Amazônia em particular. Mas hoje há muitas pessoas estudando o Brasil, muita gente que conhece o país. A diferença é que, além de ter este panorama de 30 anos, tenho uma visão mais ampla, de música, capoeira, da vida como moleque em Brasília, da vivência de rua, estudando em uma escola pública em Brasília. Mas o país tem ganhado mais importância aqui por causa da questão ambiental.

Seu mais recente livro trata a questão ambiental de uma maneira diferente: mostra como, na História, empresas norueguesas acabaram contribuindo para a degradação ambiental no Brasil…

Esse é o paradoxo que é pouco conhecido. Muitas pessoas aqui conhecem a atuação ambiental da Noruega, ou se relacionam com o Brasil pois compram soja para as sua criações de peixes ou ainda com a indústria do petróleo, mas poucos sabem do histórico das grandes empresas norueguesas no Brasil. A grande novidade deste livro é mostrar o peso das companhias e dos investimentos noruegueses em atividades que destroem a Amazônia. Muitos noruegueses sabem que o país investiu US$ 1 bilhão na última década para preservar a floresta, principalmente no Fundo Amazônia, mas poucos sabem que foram gastos cinco vezes mais, pelo menos, em atividades destruidoras. Este panorama apresentado no livro surpreende até os diplomatas noruegueses. È claro que este mesmo paradoxo você vai encontrar em muitos países pelo mundo, a gente precisa de energia, matéria prima, e tudo gera algum dano à natureza, todos sabem disso, mas queremos mostrar que, apesar da vitrine da Noruega, da imagem de bonzinho, tem outros pontos que não temos tanto orgulho. E, para melhorarmos de fato nossa atuação, temos que tratar deste aspecto, isso precisa ser encarado.

De que empresas você está falando?

No livro estudo quatro das maiores empresas norueguesas: a Equinor (petróleo), a Hydro (alumínio), a Yara (fertilizantes) e a Statkraft (energia elétrica). A Hydro recebe mais atenção, por causa do vazamento ilegal da sua refinaria de alumina em Barcarena (PA) em 2018. Felzmente, o que vazou não foi tão perigoso quanto temíamos, mas a empresa desrespeitou a legislação ambiental brasileira e mentiu para a população local e a mídia. Levou 20 milhões de reais em multas, foi forcada a reduzir a produção em 50% e perdeu muito dinheiro, bilhões de reais, em consequência disto. A minha crítica trata da falta de fazer investimentos mais do que necessários no sistema de tratamento de água poluída, e da falta de respeito a comunidade local. A Equinor, de longe a maior empresa norueguesa, é a segunda maior produtora de petróleo no Brasil, só perde o primeiro lugar para a Petrobrás. Produção de petróleo é uma atividade altamente poluidora, e a queima do petróleo é uma das principais fontes de emissão de gases de estufa do mundo. Mas a minha crítica no livro trata de “greenwashing”. A Equinor vende uma imagem de uma empresa de energia “equilibrada”. Na sua propaganda e no seu site, fala muito mais em energias limpas e em sustentabilidade do que em energias fosseis. Mas a verdade é que a Equinor, no mundo, só tem 3% de energia renovável no seu portofolio. No Brasil o quadro é ainda pior. Só tem 3 milésimos em energia renovável. A Yara critico pela convivência com o desmatamento ilegal na Amazônia e no cerrado, a Statkraft por se envolver, de olhos abertos, em empresas brasileiras podres de corrupção.

Essa atuação das empresas norueguesas de forma mais destrutiva ao meio ambiente brasileiro ainda ocorre ou ficou no passado?

A atuação de empresas norueguesas no brasil está aumentando cada vez mais. O Brasil é o terceiro maior mercado de investimentos para as empresas norueguesas, atrás apenas dos Estados Unidos e da União Europeia. E, segundo as fontes oficiais norueguesas, a Noruega é o sétimo maior investidor internacional no Brasil. Temos uma relação muito maior do que a maior parte das pessoas imaginam. No começo, atuamos muito mais no lado negativo, ambientalmente falando, com uma atuação tradicional de empresas multinacionais que vão para países pobres e abusam das leis ambientais, das relações diretas e pessoais com presidentes e ditadores, e tiram o máximo proveito disso, com pouca preocupação com o meio ambiente e com os direitos humanos. Isto foi o caso da Aracruz, um gigante na área de celulose que nasceu nos anos 70. Mas no início dos anos 1980 a coisa começou a mudar quando a Noruega, através de um programa do governo, de cooperação internacional, se engajou na questão indígena, em especial dos ianomâmis. Até então, a Noruega tinha um papel então 100% destrutiva, ambientalmente, seja na Amazônia ou na Mata Atlântica. Hoje a Noruega, tanto o governo quanto as empresas, têm uma preocupação ambiental muito grande. A Noruega é o maior doador ao fundo Amazônia, por exemplo. Mas, ao mesmo tempo, como mostro no livro, a gente gasta muito mais dinheiro em atividades que destroem a floresta amazônica.

Como os noruegueses reagem ao seu livro?

Bom, este não é um livro que vendeu milhares e milhares de cópias (risos), então seu impacto foi mais restrito. Muitas pessoas como eu, ficaram surpreendidos com a quantidade de dinheiro investido nas empresas que destruíram a Amazônia. Mas o livro começa a ser mais conhecido na mídia e, nestes casos, as pessoas acham muito bom que este lado da questão chegue á superfície. Políticos têm debatido isso e, em um ano, teremos eleições, e essa questão amazônica será obrigatória a todos os políticos. Isso me deixa muito feliz, pois quero ajudar a Noruega a atuar de uma forma melhor e mais sustentável na Amazônia.

O seu livro ajuda na pressão ambiental sobre as empresas norueguesas?

Com certeza, sobre as empresas e sobre os políticos. Uso o caso da Hydro para mostrar até que ponto pode ir se as empresas não levam a sua responsabilidade ambiental e social a sério. Agora, com a edição em português, espero que o livro possa somar à pressão sobre os políticos e as empresas brasileiros. O governo brasileiro é o principal ator para que a Amazônia seja preservada e tenha atividades sustentáveis.

No seu livro há um capítulo sobre a relação da Noruega com o governo Bolsonaro…

A relação entre Noruega e Brasil sempre foi muito boa. Sempre existiu uma afinidade um pouco estranha e surpreendente, até. Sempre houve uma aproximação entre dois países, muito diferentes em todos os aspectos, tamanho, população, clima, cultura. Eu não sei a real razão desta afinidade, mas sempre houve um bom relacionamento, com muitos interesses comuns. Mas com a chegada de Jair Bolsonaro ao governo essa cooperação muito boa na agenda ambiental, que vinha desde o governo Lula, piorou, e muito. O melhor exemplo disso é o fechamento do Fundo Amazônia. E é importante as pessoas saberem que o Fundo Amazônia não é uma invenção norueguesa, ele foi uma proposta brasileira, primeiro apresentada pela sociedade civil brasileira e apoiado pelo governo brasileiro no primeiro mandato do Lula, criando um fundo que era administrado pelo BNDES, convidando a todos os países para contribuir. A Noruega foi o primeiro doador até hoje é o maior doador, com quase 95% de todos os recursos do fundo. E a relação sempre foi muito boa, nas gestões Lula I e II, Dilma I e II e Temer. Mas aí chegou o Bolsonaro e em meio ano eles conseguem fechar o Fundo Amazônia e bloquear os recursos que estão ali para ajudar o brasil a alcançar suas metas ambientais, e climáticas, incluindo as assumidas no Acordo de Paris. Isso afetou. A relação comercial ainda continua positiva, mas os problemas no setor ambiental acabam prejudicando todos os outros setores. Hoje estamos no pior momento da relação bilateral desde que conheci o Brasil em 1990, e, na minha opinião, isso ocorre pela agenda ambiental, ou pela agenda não ambiental, do governo Bolsonaro sobre a Amazônia.

Esta relação bilateral pode piorar ainda mais caso o governo brasileiro não atue de forma mais séria na questão ambiental?

Ficar pior que está hoje é difícil, a cooperação parou. Agora a questão comercial, como a compra da soja brasileira para a ração do salmão norueguês, é uma história longa. No livro eu critico os produtores de salmão da Noruega que não cobram o suficiente e compram soja de regiões desmatadas da Amazônia. Mesmo importando soja certificada, através do esquema Pro-terra, não podemos ter certeza que esta soja é responsável e sustentável de fato, pois o Pró-terra não é bom o suficiente, e isso tem a ver com a falta de transparência. O Brasil vai enfrentar, no mercado norueguês, uma pressão cada vez maior, e não apena na soja, mas em todos os produtos dos brasileiros. Vamos ver um exemplo: Se você vai comprar uma camiseta e descobre que a loja atua com trabalho infantil, você desiste da compra. Isso pode ser replicado no caso da soja, de empresas que em sua cadeia tenha soja suja ou de alto risco de soja de áreas de desmatamento ilegal. Essa pressão por parte dos nossos importadores de soja brasileira é algo positivo, pode ajudar a um manejo mais sustentável da Amazônia.

Mas onde isso pode ficar mais claro?

Hoje vejo esse debate ganhando força não apenas na avaliação do acordo entre Brasil e União Europeia, mas no debate do acordo entre Mercosul e EFTA (Associação do Livre Comércio Europeu, que reúne Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça). Não somos tão grandes como a União Europeia. Os parlamentos desses países começam a afirmar que não vai ratificar o acordo por causa da questão amazônica, se repetindo o que ocorre na União Europeia. Há uma forte pressão para não ratificar esses acordos. Acredito que já há maioria no parlamento Norueguês para não ratificar o acordo com o Mercosul, sem compromissos reais e duradouros do Brasil na questão da Amazônia. Isso é ruim pro comércio a curo prazo, mas é bom porque é mais uma pressão para que o Brasil assuma uma posição mais responsável sobre a Amazônia.

Como o Brasil chegou a esta situação aos olhos dos noruegueses?

Há dez anos a situação era outra, o brasil era a estrela ambiental do mundo, todos olhavam para o Brasil como exemplo, pelo aumento da preservação, a caída fenomenal das taxas de desmatamento e com redução de pobreza. Hoje as pessoas têm uma imagem negativa, e a principal causa é o presidente Jair Bolsonaro, por sua politica e seu discurso ambiental. Agora, o brasil sempre teve uma imagem multifacetada na Europa, boa no lado cultural, mas com muitos questionamentos sobre pobreza, desigualdade, criança de rua, etc., mas sempre foi uma imagem positiva. Agora ela está pior.

Como você vê o futuro das relações bilaterais?

Eu acho que vai continuar bastante complicado durante o governo Bolsonaro. São dois projetos políticos muito diferentes, o da Noruega e o da gestão Bolsonaro. É uma situação delicada para o governo norueguês se aproximar do Brasil com o Bolsonaro no poder, era muito mais fácil durante os governos FHC e Lula. A minha análise é que os governo de FHC, Lula e no comecinho do governo Dilma havia um projeto para o país, de gerar riqueza, reduzir a desigualdade e ampliar a proteção ambiental. Um projeto de nação inclusiva, sejam pobres, indígenas, negros, minorias. Havia um projeto de país mais unificado, com um esforço enorme para que isso ocorresse. Infelizmente não vejo nada disso no governo Bolsonaro.

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