O histórico de cobiça internacional pela Groenlândia, novo alvo dos EUA

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A menos de duas semanas de uma visita oficial à Dinamarca, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta terça-feira (20/8) a decisão de cancelar a viagem ao país. O motivo (do "adiamento", segundo ele) foi a recusa da primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen de discutir no encontro a ideia de Trump de comprar a Groenlândia, território com relativa autonomia, mas controlado pelo Reino da Dinamarca. Mette Frederiksen classificou o plano, revelado neste mês pelo jornal The Wall Street Journal, como "absurdo".

O episódio reaviva um longo histórico de cobiça internacional pelo controle da ilha. Ao longo de séculos, o controle da Groenlândia foi alvo de disputa principalmente entre Noruega e Dinamarca, embora a Islândia e os Estados Unidos (em mais de uma oportunidade) também tenham lançado iniciativas para tomar o controle da ilha, como registra a revista islandesa Reykjavík Grapevine.

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Embora os povos nativos do Ártico tenham sido os primeiros a habitar a Groenlândia, a historiografia credita o feito a colonizadores nórdicos, incluindo os islandeses, que teriam estabelecido na ilha os assentamentos originais. Esses desbravadores foram liderados na década de 980 pelo explorador norueguês Eiríkr Þorvaldsson – ou simplesmente Erik, O Vermelho.

Mais tarde, no século 13, os groenlandeses submeteram-se ao domínio norueguês. Foi depois da União de Kalmar – que inicialmente unificou os reinos da Dinamarca, Suécia e Noruega sob um único monarca e depois, entre 1523 e 1814, contou apenas apenas com dinamarqueses e noruegueses – que o domínio sobre a ilha passou à coroa dinamarquesa.

Erik, O Vermelho viveu grande parte de sua vida na Islândia, mas nasceu na Noruega. Já no século 20, os noruegueses chegaram a usar esse argumento para tentar recuperar o leste da Groenlândia, mas o plano não deu certo. A demanda foi apresentada em 1931 à Corte Internacional de Justiça em Haia, na Holanda, e a decisão, favorável à Dinamarca, saiu dois anos depois.

Em paralelo, o empresário e poeta islandês Einar Benediktsson escrevia vários artigos de jornal sobre a reivindicação dos islandeses à Groenlândia. Nesse esforço, Einar conversou com Benedikt Sveinsson, ex-presidente do Parlamento, pedindo ao governo que mantivesse a reivindicação sobre a "antiga colônia de islandeses", relembrou, em entrevista ao jornal online Vísir, Sumarliði Ísleifsson, professor associado de mídia cultural aplicada da Universidade da Islândia.

Depois da negativa dada à Noruega em 1933, a Islândia tentou dar sua cartada. Jón Þorláksson, o primeiro presidente do Partido da Independência, apresentou uma proposta parlamentar para “salvaguardar os interesses da Islândia” e conquistar para os islandeses direitos sobre a ilha. O plano foi aprovado pela Comissão de Relações Exteriores. O economista Jón Dúason também escreveu um artigo acadêmico sobre a reivindicação à Groenlândia com o apoio financeiro do Parlamento, mas a iniciativa não recebeu muita atenção internacional.

Antes de Trump, os americanos já haviam feito ao menos duas investidas pelas ilha. Na primeira, em 1867, o secretário de Estado William H. Seward trabalhou em conjunto com o ex-senador Robert J. Walker para elaborar uma proposta de aquisição do território – em uma tacada que incluía também a ideia de compra da Islândia.

A outra ocorreu como um dos desdobramentos do fim da Segunda Guerra Mundial, quando a Dinamarca foi invadida pela Alemanha nazista. Os EUA, então, ocuparam a Groenlândia para defendê-la de uma invasão alemã. Após o conflito, o governo americano assumiu seu interesse geopolítico pela Groenlândia e ofereceu à Dinamarca US$ 100 milhões pelo território. Os dinamarqueses prontamente recusaram a oferta.

O interesse americano em uma ilha com menos de 60 mil habitantes e 2,2 milhões de quilômetros quadrados, dos quais 1,7 milhão estão sob gelo, certamente tem relação com as riquezas que estão abaixo dessa cobertura, como carvão e urânio. Sobre a proposta de Donald Trump, o primeiro-ministro da Groenlândia, Lars Lokke Rasmussen, fez troça. "Deve ser uma piada de 1º de abril fora de época", disse. 

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