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Sociedade

O que a Finlândia pode nos ensinar para termos uma sociedade mais transparente

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019
O que a Finlândia pode nos ensinar para termos uma sociedade mais transparente

Por Juhani Pajunen*

Em meu artigo anterior para o Scandinavian Way, escrevi sobre os três fundamentos da sociedade finlandesa: transparência, participação e justificativa nas relações entre cidadãos e governo. Mas como colocar em prática esses conceitos? Com duas ferramentas: open government (governo aberto) e open data (dados abertos).

Usá-las significa que todos os documentos públicos serão abertos: não somente as atas com decisões já sacramentadas, mas sim qualquer informação, sejam estatísticas, orçamentos ou compras públicas. Aliás, os dados sobre aquisições estão entre as melhores maneiras de combater a corrupção e o surgimento de um governo autoritário.

Na Finlândia, apenas dados pessoais, segredos industriais e questões de segurança nacional são exceções a essa regra. Afora esses, qualquer pessoa tem acesso a dados públicos - e sem que seja necessário dizer o motivo para ver os documentos. Essa abertura é muito importante porque, assim, o cidadão pode influenciar nas decisões ainda quando elas estão em fase de preparação. Em vez de o governo planejar sozinho, empresas, indivíduos e comunidades são ativamente convidados a participar do processo de planejamento.

A informação pode ser utilizada também para soluções práticas. O caso do Whim é um bom exemplo. Whim é um serviço feito pela startup finlandesa MaaS Global. A ideia é fornecer "mobility as a service". Em outras palavras: em vez de o cidadão ter que optar entre possuir um carro, comprar bilhetes para o transporte público ou mesmo pegar um taxi, o Whim fornece todas essas coisas como um serviço só. Você paga uma mensalidade e terá acesso a carros, táxis, transporte público e até bicicletas.

O serviço tem vários planos. O mais amplo inclui tudo: você pode usar o carro como quiser, táxis como quiser, transporte público como quiser e bicicletas como quiser. Já que o Whim depende em grande parte do transporte público, ele utiliza dados abertos fornecidos pela cidade de Helsinque. São informações como rede de transporte, rotas e horários.

O uso dos dados abertos não se restringe a essas informações básicos. O serviço também conta com itens como previsão meteorológica. Quando chove, por exemplo, a bicicleta acaba não sendo uma opção viável, e por isso o serviço não sugere a bicicleta para a sua rota.

Na teoria, seria possível fazer tudo isso com os dados fechados, mas obtê-los e atualizá-los seria um processo tão complexo que na prática inviabilizaria o serviço. Em outras palavras, sem a abertura de dados, a mobilidade em Helsinque não contaria com um serviço que tem ajudado a melhorar a vida de todo mundo. 

Governo e dados abertos também têm seus problemas e desafios. O risco de uma burocracia crescente é real. Um outro problema é que, embora a informação seja aberta e acessível, na realidade poucas pessoas vão atrás dela (os jornalistas são provavelmente os usuários mais ativos).

A abertura dos governos também tende criar uma espécie de teatro político: na Finlândia, normalmente os assuntos são discutidos entre vários partidos com um bom nível de cooperação, mas as reuniões dos vereadores ou dos deputados com alguma frequência viram um show quando os políticos querem se apresentar para as câmeras na internet.

(Nesse caso, há algum paralelo com o que se vê também no Brasil.)

*JUHANI PAJUNEN é um empreendedor com 20 anos de experiência em relações públicas. Trabalhou com a agência nacional de notícias finlandesa e como CEO de uma das maiores agências de relações públicas da Finlândia. Atualmente está na Source Creative, agência líder focada em relações públicas governamentais. Em 2018, foi um dos palestrantes da primeira edição do Scandinavian Way, evento realizado em novembro em São Paulo pela consultoria de comunicação Imagem Corporativa que deu origem ao portal Scandinavian Day