Preloader

Sociedade

Dinamarca e Islândia entram em disputa por manuscritos vikings

terça-feira, 12 de novembro de 2019
Dinamarca e Islândia entram em disputa por manuscritos vikings

Uma coleção de manuscritos medievais de valor inestimável tornou-se uma espécie de "batalha viking" entre Dinamarca e Islândia. Com relatos de incursões vikings e da história nórdica, os documentos, que datam do século XII, já foram chamados pela Unesco, a agência das Nações Unidas para educação, ciência e cultura, de "a coleção mais importante de manuscritos escandinavos". Eles estão em posse dos dinamarqueses, mas os islandeses os querem de volta.

Esses textos integram a Coleção Arnamagnaean, que pertenceu ao pesquisador Arni Magnusson. O historiador e especialista em literatura e línguas nasceu na Islândia e morreu em 1730 em Copenhague, onde deixou seus 3 mil manuscritos. Parte da coleção já retornou a Reykjavík, a capital islandesa, mas 1,4 mil documentos ainda estão sob a guarda da Universidade de Copenhague.

LEIA TAMBÉM:
- Por que as Sagas Islandesas são um ícone da literatura escandinava
Dinamarca prescreve "vitamina de cultura" para tratar depressão
Noel também é cultura: na Islândia, a tradição é trocar livros no Natal

O item mais precioso é uma cópia quase completa de Heimskringla, a mais conhecida das sagas dos reis nórdicos antigos. A obra foi escrita originalmente no século XIII pelo poeta e historiador islandês Snorri Sturluson, e a cópia em posse dos dinamarqueses é do início do século XV. Ao contrário de muitos manuscritos medievais islandeses, que têm poucos floreios decorativos, essa versão é ricamente ilustrada com intrincadas letras vermelhas em cada página.

Um atestado do valor dos manuscritos está no dinheiro gasto para que eles possam sair da Universidade de Copenhague: cada vez que um item da coleção deixa a instituição por empréstimo, ele é segurado em valor equivalente a mais de R$ 3 milhões.

A Dinamarca não teria obrigação de devolver os documentos, já que, afinal, eles não foram roubados, e sim recebidos como doação, feita por seu antigo dono. Ainda assim, em uma iniciativa dos dinamarqueses para manter boas relações com sua ex-colônia, as devoluções começaram na década de 60. 

O início da disputa

Um tratado assinado em 1965 definia como seria a divisão dos itens, com a parte que cabia à Islândia retornando a seu país de origem entre 1971 e 1997. Não havia maiores controvérsias sobre esse acordo, mas a ministra da Cultura e Educação da Islândia, Lilja Alfredsdottir, agora quer a devolução de mais documentos. Os islandeses querem levá-los a um novo instituto dedicado a Magnusson, que realizará uma exposição de documentos medievais.

Matthew Driscoll, professor responsável pela coleção na Universidade de Copenhague, que é contra a ideia, argumenta que os manuscritos restantes fazem parte do patrimônio cultural da Dinamarca. À agência AFP, ele disse que a Universidade de Copenhague cooperou estreitamente com Reykjavík, digitalizando todos os trabalhos e disponibilizando-os aos pesquisadores.

"Essas não são coisas que foram adquiridas ilegalmente ou roubadas. Arni era o dono desses manuscritos, ele os recebeu ou os comprou e depois os deixou de maneira completamente legal para a Universidade de Copenhague", disse Driscoll.

Mesmo na Islândia não há unanimidade sobre a devolução. Haraldur Bernhardsson, professor de estudos medievais na Universidade da Islândia, diz concordar com a necessidade de tornar o patrimônio cultural visível para as gerações futuras, mas acrescentou: "Acho que podemos fazer isso em colaboração com a Coleção Arnamagnaean em Copenhague".

Manter todos os trabalhos islandeses em Reykjavík na verdade limitaria o número de acadêmicos que os estudam, acreditam alguns especialistas. "Se você realmente deseja solicitar manuscritos islandeses do exterior, talvez deva priorizar manuscritos que não estão sendo estudados atualmente, o que obviamente não é o caso da coleção Arni Magnusson", disse Bernhardsson.