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Inovação

Como a Finlândia uniu-se à indústria farmacêutica para tentar a cura para doenças genéticas

quinta-feira, 18 de julho de 2019
Como a Finlândia uniu-se à indústria farmacêutica para tentar a cura para doenças genéticas

Na Universidade de Helsinque, grandes cilindros metálicos ocupam um laboratório no porão. Embora o cenário seja eminentemente científico, os pesquisadores acrescentaram um toque lúdico às fichas que batizam cada um dos tanques, que levam nomes que remetem a um elemento muito ligado à vida dos finlandeses. Dentro da “Rainha da Neve” e do “Castelo de Neve”, nomes de alguns dos tanques, estão amostras genéticas que podem ajudar a decodificar as variantes genéticas responsáveis ??por diferentes doenças.

Situada no extremo nordeste da Europa, a Finlândia, ao longo dos últimos milênios, recebeu muito menos levas de imigrantes do que outras partes do continente. Isso faz com que, hoje, o chamado pool genético da população finlandesa seja muito mais homogêneo do que a média de outras partes da Europa, ou mesmo do mundo.

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Essa característica pode ajudar os cientistas a identificar variantes genéticas ligadas a doenças que vão de diabetes a Alzheimer, disse ao site Mobi Health News Anu Jalanko, gerente de projetos da FinnGen. Em vez de os pesquisadores selecionarem bilhões de variantes para vinculá-las a uma doença ou condição, eles precisam apenas vasculhar centenas de milhares.

O país aproveitou esse recurso, além de ricos bancos de dados sobre a saúde da população e de leis que facilitam as pesquisas genéticas, para lançar o FinnGen Project, uma parceria de pesquisa público-privada que pretende levantar 500 mil amostras genômicas (cerca de 10% da população finlandesa) para ajudar a entender as origens de diferentes doenças, eleger tratamentos e propor potenciais novas terapias. O projeto começou oficialmente em 2017 e terá duração de seis anos.

Talvez esse não seja o primeiro projeto nacional de genoma, mas o conjunto único de dados genéticos e de saúde chamou a atenção dos principais parceiros da indústria farmacêutica. Atualmente, o projeto conta com um financiamento total de € 70 milhões (ou cerca de R$ 295 milhões), dos quais € 50 milhões (R$ 210 milhões) vêm de parceiros privados internacionais, incluindo AbbVie, AstraZeneca, Biogen, Celgene, Genetch, GSK, MSD, Pfizer e Sanofi. Os outros € 20 milhões vêm do Business Finland, uma agência governamental responsável pelo financiamento da inovação.

Outros diferenciais
A homogeneidade genética da população da Finlândia não é o único componente-chave para o projeto. Outro dos diferenciais é que os finlandeses têm um sistema de saúde administrado pelo governo, que é capaz de rastrear os registros de saúde de sua população ao longo da vida.

"Um diferencial dos países nórdicos é que todos nós coletamos dados sobre o uso do sistema de saúde ao longo de décadas", disse Aarno Palotie, diretor científico do FinnGen Project. “Sempre que você visita um hospital, seu diagnóstico da alta é registrado em uma central, de forma estruturada. Essa central conta a história e traz os dados de todas as suas consultas médicas ao longo da vida."

Como parceiros da iniciativa, os dez biobancos do país também estão contribuindo com dados. Isso é em parte facilitado pelas leis finlandesas que regem os biobancos: elas permitem que os pesquisadores usem amostras doadas para mais de um propósito de estudo específico. Enquanto esse projeto recruta ativamente novos participantes, os cientistas são capazes de extrair informações do conjunto de dados que já existe.

Outro fator que contribui para isso é a cultura de compartilhamento de dados que há no país. "Os cidadãos finlandeses têm uma atitude muito positiva em relação à pesquisa e estão dispostos a participar de ensaios clínicos e a ajudar a desenvolver os serviços de saúde", disse Tuula Helander, conselheiro sênior no Ministério das Relações Exteriores para o governo da Finlândia.

Considerando a natureza sensível dos dados, a segurança é outro tema importante no projeto. Ao longo do processo, todos os dados permanecem sob a jurisdição dos biobancos. O projeto deixa claro que as empresas farmacêuticas não possuirão em nenhum momento as amostras ou os dados. Além disso, as informações são anônimas, e os pacientes podem sair na hora que quiserem.

No primeiro ano, o projeto coletou mais de 100 mil amostras, de acordo com a Business Finland. Além disso, 290 mil finlandeses fizeram parte da plataforma de pesquisa do biobanco que fará parte da abordagem da FinnGen. A partir dessa base de informações, os pesquisadores já começaram a cruzar os dados. E importante: embora o projeto dê uma ideia sobre a população finlandesa, os cientistas explicam que os resultados do projeto têm o potencial de impactar pessoas de outros países.

Clique aqui e saiba mais sobre o FinnGen Project.