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Sociedade

Norueguesa volta a ser cidadã do país após 72 anos de punição por "traição"

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019
Norueguesa volta a ser cidadã do país após 72 anos de punição por "traição"

Em 1947, dois anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, Lillian Crott Berthung casou-se com o soldado alemão Helmut Crott. A "traição" da norueguesa não foi bem recebida: hostilizada nas ruas, ela se mudou com o marido para a Alemanha em 1947, o que também a fez perder a cidadania de seu país natal.

Mais de sete décadas depois, Lillian, que tornou-se escritora e hoje está com 96 anos, recuperou o direito de ser chamada daquilo que ela é de fato: uma mulher norueguesa. No fim de janeiro, o embaixador da Noruega na Alemanha, Petter Ølberg, entregou a ela o documento que atesta a recuperação de sua cidadania, segundo registrou a rede de televisão NRK.

"Eu não consigo nem acreditar que é verdade. Justo quando eu estou perto de chegar aos 100 anos. Eu preciso digerir a notícia primeiro", disse ela ao receber o passaporte. "É bom pensar nisso." (Antes dessa conquista pessoal, em 2012, a história de amor do casal já havia virado livro, escrito a quatro mãos por Lillian e a filha, Randi Crott.)

Lillian Berthung já havia tentado recuperar a cidadania antes, sem sucesso. A nova investida ocorreu depois de outubro do ano passado, quando a primeira-ministra da Noruega, Erna Solberg, fez um pedido oficial de desculpas pelo tratamento dado pelo país às mulheres que se relacionaram com alemães durante o conflito (as "tyskertøs", ou, literalmente, "garotas alemãs"). No Twitter, a própria primeira-ministra registrou a devolução da cidadania à escritora (ver abaixo).

A Alemanha invadiu a Noruega em 1940, e a ocupação durou até o fim da Segunda Guerra, em 1945. Estima-se que entre 40 mil e 50 mil mulheres tenham se relacionado com homens alemães durante o conflito. Após a desocupação, a Noruega fez detenções em massa de "tyskertøs", de acordo com o jornal Norway Today. Muitas foram enviadas para campos de detenção, e outras, sumariamente deportadas.

O número de "tyskertøs" foi equivalente a 10% da população feminina com idades entre 18 e 35 anos. Estima-se que das relações dessas mulheres com alemães tenham nascido entre 10 mil e 12 mil crianças. Há registro de 28 homens que se casaram com mulheres do exército alemão. Oficialmente, eles não foram punidos.